OPais online | 27-09-2012

o pais27-09-2012

Elas, Luanda e o mundo

Tornou-se quase imperioso ouvir sempre às manhãs de quarta-feira o programa “Elas e o Mundo”, na Luanda Antena Comercial, onde quatro mulheres abordam diversas questões da vida política nacional.

Participam do encontro a actual reitora da Universidade Privada de Angola, Laurinda Hoygaard, a advogada Ana Paula Godinho, a jornalista e administradora da Agência de Notícias Angop, Luísa Damião, e a antiga vice-ministra da Educação, Alexandra Simeão.

À semelhança da semana passada, as quatro convidadas residentes de Luísa Fançony voltaram a analisar os resultados registados nas eleições de 31 de Agosto, onde o MPLA conseguiu uma maioria apesar da elevada abstenção que se registou em quase todo o país, a rondar os cerca de 40 por cento.

Esta prática registou-se fundamentalmente naquelas zonas de maior concentração populacional, como é o caso da província de Luanda, a capital do país, que alberga um número de moradores superior ao inicialmente projectado, chegando hoje a uma cifra de mais de quatro milhões de pessoas.

É na província de Luanda onde reside a maior parte dos potenciais eleitores pelos quais os nove candidatos (MPLA, CASA-CE, UNITA, PRS, FUMA, PAPOD, Nova Democracia, CPO e FNLA) digladiaram-se em Agosto último, cada um vendendo o seu projecto para merecer a atenção geral.

Passado o pleito eleitoral, a apresentação dos resultados que ditaram os camaradas como os vencedores em todos os círculos provinciais, incluindo na capital do país onde conquistou um máximo de quatro deputados contra um (1) da UNITA, os contendores ainda fazem contas sobre o que terá corrido bem ou mal nas políticas que apresentaram à sociedade.

Seria alguma imprudência da nossa parte dizer que o MPLA tenha perdido no círculo de Luanda por ter alcançado apenas quatro lugares, numa localidade que nos últimos tempos se tornou palco de manifestações de jovens e de partidos políticos nos meses que antecederam as eleições.

Mas, também, importa realçar que, tal como muitos analistas vão observando ultimamente, o nível de abstenção deveria servir de reflexão para as políticas que estão a ser desenvolvidas em Luanda, sobretudo para a juventude e outros sectores, tanto para o partido vencedor assim como os crónicos candidatos.

Não acredito que a inexistência de debates sinceros e frontais para se delinear as melhores políticas para melhoria da vida dos próprios cidadãos nos leve a algum lado.

Porque, apesar das sondagens que se encomendam, devem ser os próprios cidadãos, através das associações representantivas (no caso dos profissionais dos diversos ramos) ou das coordenações de moradores, administração comunal e municipal, que devem participar de muitas das políticas desenhadas para as suas áreas de juridisção.

Chegou o momento de se envolver cada vez mais os próprios angolanos na discussão dos passos que lhes pode garantir uma vida melhor, em vez da célebre pirâmide invertida em que as estruturas centrais aparecem sempre no topo.

Surpreendeu-me ouvir de uma das convidadas da LAC que o 2º secretário do MPLA em Luanda, Jesuino Silva, terá dito que muitos daqueles que não votaram no seu partido ou apostaram no adversário “são os que pensam que o país vai ser construído de um dia para o outro”.

Tendo em conta os últimos resultados, a participação da juventude, associações cívicas e outros grupos de pressão da sociedade civil na preparação do próprio pleito, é importante que os partidos políticos que pretendem dirigir o país passem a olhar de outra forma os potenciais eleitores e as formas de se apresentarem a estes.

A velha teoria vendida pelo PRS das maratonas, do pincho, churrascos e um bocadinho de cerveja há muito que deixou de ser a mais adequada.

O mais natural para muitos daqueles que se dirigiram às urnas, ou não, passava mesmo por questionar alguns dos contendores sobre os projectos apresentados e a execução que poderá ser feita para melhorar as suas vidas nos próximos tempos.

E exigir isso não significa de forma alguma que os angolanos não reconheçam os esforços empreendidos pelo Executivo do MPLA na melhoria de muitos serviços e na distribuição dos bens, embora existam questões sobre as quais muitos discordam.   Por exemplo, não vejo com bons olhos o facto de em muitas zonas urbanas, habitadas até por ditos integrantes da classe média, serem implantados chafarizes em pleno século 21. 

Dani Costa