Entrevista || 27.05.2013

GRANDE ENTREVISTA 27 - 5 -2013

Alexandra Simeão: “Os nossos dirigentes têm que aprender a ser humildes”

Alexandra Simeão Foto: o pais.netAlexandra Simeão
Foto: o pais.net
Porque é que se considera uma optimista reservada?
Porque fui educada a não ser pessimista mas, normalmente, tanto o optimismo em excesso como o pessimismo também em excesso não são bons. Um porque não nos permite ir para frente, o outro porque às vezes nos deixa cair por causa de tanto entusiasmo. Mas, de facto, quando digo optimista reservada normalmente refiro-me a questões às quais atribuo muita importância. E creio que foi no decorrer de um comentário que fiz à Luanda Antena Comercial (LAC) e tem a ver com o país. Porque não obstante estarmos todos imbuídos de um espírito optimista e acreditarmos todos que temos pernas para andar, poderíamos ir muito mais longe. Ao mesmo tempo olhamos para o lado, para trás e vemos que nem tudo está muito bem sedimentado, compactado e temos de voltar muitas vezes para fazer remendos. Portanto, é essa a reserva do meu optimismo.
 
Isso está associado a alguma indisciplina que diz haver em excesso no país?
Tem a ver sim. Gerir um país é como gerir um casa e tomar conta de um povo, é como tomar conta de uma família. É só extrapolar em termos de números. Mas se não formos disciplinados individualmente, é obvio que vai ser difícil conseguirmos educarmo-nos, educarmos os nossos filhos e o país. Relativamente à indisciplina a que me referia, tem a ver sobretudo com a incapacidade de nós prestarmos contas. E quando digo prestamos contas não é só do ponto de vista financeiro, tem sobretudo também a ver com a eficácia e qualidade do nosso trabalho. Enquanto gestores públicos, pessoas com capacidade de gestão, todas as nossas
acções, os nossos programas, são susceptíveis de desencadear um certo número de benefícios. Se não desencadeiam é  preciso saber porquê, verificar em que situação, ano, momento, em que este gestor público não está a ser tão eficaz.
Onde é que acha que há mais indisciplina?
Nós angolanos estamos a tornar -nos mais indisciplinados na generalidade e vemos isso no nosso convívio diário, na nossa conduta do trânsito, não conseguimos respeitar uma fila, por exemplo. Se houver uma fila onde queremos pagar a água, a luz, há sempre uma dúzia de chico-espertos que se tentam meter à frente. Não estou a dizer que somos todos, mas há uma boa parte, isso também tem a ver com o facto de os exemplos virem de cima. Quer dizer que não podemos ser permissivos, os países vivem de regras, é necessário que existam para que as coisas se desenvolvam e as pessoas conheçam quais são os seus limites, porque nós aqui estamos a ultrapassar os limites. Qualquer um de nós muitas das vezes faz coisas em que não lhe acontece nada, estaciona onde quer, constrói como quer, vende o que não é seu. A nível do poder político também há esta indisciplina porque as pessoas também pensam que algumas delas nasceram nas cadeiras. Mas não nascemos, a cadeira é temporária.
 
Quem escuta hoje os seus pronunciamentos no programa “Elas e o Mundo” sente, seguramente, que a senhora está com alguma saudade dos tempos em que fazia a política activa. Com a extinção do Partido Liberal Democrático, que foi liderado pela sua mãe Anália de Vitória Pereira, pensa ter terminado a sua carreira política?
"Os nossos dirigentes têm que aprender a ser humildes. Não somos enciclopédicos, não sabemos tudo e, neste momento, temos em Angola uma sociedade civil credível, que todos os dias emite opiniões - vocês jornalistas, académicos, economistas, arquitectos, nas redes sociais, blogues. Não podemos ter a veleidade de construir um país apenas com o saber de um pequeno grupo".“Os nossos dirigentes têm que aprender a ser humildes. Não somos enciclopédicos, não sabemos tudo e, neste momento, temos em Angola uma sociedade civil credível, que todos os dias emite opiniões – vocês jornalistas, académicos, economistas, arquitectos, nas redes sociais, blogues. Não podemos ter a veleidade de construir um país apenas com o saber de um pequeno grupo”.
Não acabou. Isso tem a ver com uma deficiência de educação no sentido positivo. Eu felizmente fui educada por duas pessoas. Para já venho de uma família onde a política foi sempre extraordinariamente importante e o comentário do dia. Nós não a fazíamos a ver novelas, televisão, fazíamos a falar de política e fui crescendo neste ambiente, por um lado. Por outro lado, a política não se esgota nos partidos políticos, isso também é uma verdade que é preciso que nos entendamos. Daí a valorização da política em muitos países pela sociedade civil e as próprias organizações, individualmente consideradas ou formalmente estabelecidas. Muitas vezes são tão ou mais fortes que os partidos políticos. O trabalho de cidadania, no fundo, não deixa de ser uma actividade política activa consciente e não necessita de ter obviamente nenhuma colagem política. Seja a nível do partido criado por si ou integrado num outro. É óbvio que há intenção – e continua a ser uma intenção – não de refundar o PLD, porque não é possível refundar partido, mas pelo menos voltar a fazer um novo partido com o espírito de honra, solidariedade, mas sobretudo com o espírito de rigor e de respeito por aquilo que é uma pátria que já sofreu tanto como a minha mãe tinha. De facto, estes valores ficam impressos em nós e há esta vontade de voltar. Mas isso não significa – e é muito importante que se diga isso – e a bem da democracia angolana e mundial que a sociedade civil também não se engaje. Eu não preciso, você próprio Dani, quem quer seja não precisa de um partido para se engajar politicamente. Podemos defender causas individualmente e, no fundo, esta é aquela experiência que estou a fazer neste momento na LAC, que estou engajada naquilo que considero ser uma prestação de cidadania. Que é fazer a valorização das coisas que estão bem, ter esta capacidade, esta imparcialidade, e chamar a atenção, muitas vezes até com propostas, para as coisas que considero que estão más. No nosso programa não desencadeamos notícias, somos comentadoras de notícias que saem dos mídias durante a semana e deve-se felicitar também a este nível. Muitas das vezes o nosso trabalho é resultado das boas fontes, e o jornal O PAÍS tem sido de facto uma boa fonte. Tem essa vantagem, como disse anteriormente, não é necessário um partido político. É obvio que o bichinho da política manifestar-se-á sempre, seja no domínio de um partido, seja no plano individual. Acho que é assim: o patriota indigna-se sempre que há uma injustiça. Para mim é o sentido patriótico. Mas também estar disponível para ajudar sempre que for possível puxar a carroça.
 
É verdade que pretende concorrer às eleições autárquicas?
Para já não sei quando é que serão as autárquicas, nem sei se vão acontecer. Neste momento, ainda não é líquido que vão acontecer as autárquicas, não há nenhum programa que tenha sido aprovado e a última informação que tive era de que o Ministério da Administração do Território ainda estava a fazer estudos e levantamentos, sobretudo convidar a sociedade civil para o efeito. Portanto, não sei se vai acontecer e também não sei se estaremos preparados. E digo-lhe porquê: sinceramente que a nossa espera também tem a ver com alguma ponderação que estamos a fazer neste momento. É obvio que as leis mudaram, as regras de constituição de partidos políticos também, mas provavelmente essa não é a nossa principal preocupação.
 
Numa entrevista que concedeu à revista Figuras e Negócios falava numa possível participação nas eleições autárquicas em 2015, se acontecerem. O que dizer sobre isso?
Nunca disse que havia de concorrer. Provavelmente foi uma pergunta. Até porque não posso afirmar uma coisa quando ainda não tenho uma base. Estamos neste momento a olhar para o panorama político nacional, por um lado, e internacional, por outro e tentar apreciar onde é que estão alguns erros cometidos não só aqui em Angola, como também no resto do mundo. Digo isso porque hoje em todo o mundo as taxas de abstenção têm sido crescentes e há que fazer uma leitura. Porque é que as pessoas neste momento se abstêm de votar? Já não falo nos votos em branco porque estes são conscientes, mas a abstenção é uma atitude das pessoas de que eu não quero saber o que vocês estão a dizer. A taxa de abstenção que tivemos em 2012 fez com que, do nosso ponto de vista, fosse necessário formular algumas perguntas a nós próprios e a terceiros para tentar perceber o que está a acontecer e onde é que está a insatisfação.Um partido político deve ser criado com objectivos, não é só criar. Porque se reparar não há muita diferença entre a esquerda e a direita, qualquer partido da Europa, Estados Unidos, África e América Latina, não falando dos partidos extremistas, defendem mais ou menos as mesmas coisas. Defendem as políticas sociais, a necessidade de investimentos e há um conjunto de políticas que são mais ou menos universais. Houve um tempo em que a direita e a esquerda tinham um preponderância muito grave, até tinham clivagens muito grandes, mas isso é mais do ponto de vista prático do que teórico. O grande trabalho que estamos a fazer é nos bastidores, no sentido de perceber onde e se ao nos tornarmos um partido podemos ser uma mais-vália. Essa é a vantagem. Se nós chegarmos a uma conclusão sobre quais são os objectivos que devemos perseguir para ir ao encontro da expectativa daquelas pessoas que eventualmente estão descontentes, estaremos a fazer um bom trabalho. Ou seremos mais um, provavelmente.
 
Pensam manter a matriz ideológica do PLD?
Como eu disse não é tanto a matriz ideologia, mas sobretudo a matriz psicológica, no sentido de que as formações políticas, associações cívicas, devem ser criados com objectivos vocacionados para o desenvolvimento. A promoção daquilo que é o bem comum. A minha mãe era uma humanista, ela defendia de facto isto, uma Angola sem fome, sem desigualdade. É obvio que se olharmos para isso assim de um ponto de vista frio poderá parecer utopia. Hoje há fome em muitas partes do mundo, pode não ser uma fome quantitativa mas é uma fome qualitativa. De qualquer forma, nós temos mesmo fome, há muitas desigualdades, a diferença entre os muito ricos e os muito pobres é absurda. Isto já não se compreende num país que está há 10 anos de paz, que neste momento é apontado internacionalmente como sendo um caso de sucesso em termo de crescimento económico. É obvio que o petróleo está por trás disso, mas é mais uma razão para se em 2011 e 2012 conseguimos ter uma taxa de crescimento superior à da China, não tenhamos ainda sido capazes de gerar programas para com alguma rapidez e total eficácia dirimir uma série de questões que estão aqui. Agora há coisas que nós continuamos a manter no erro.
 
Quais?
Por exemplo, nós não podemos continuar a fazer projectos que não são sustentáveis. Não posso criar uma cidade do Kilamba e não ter esgotos. Não posso criar um Luanda Sul, não ter esgotos e estes irem para a baía do Mussulo. Portanto, não posso criar sustentabilidade quando só me preocupo com os telhados e não com as bases.Percebes? Isso é um exemplo, mas se quisermos ser mais abrangentes o país construiu milhares de quilómetros de estradas. Era necessário, um imperativo que as houvesse porque sem elas não haveria circulação, desenvolvimento, não havia troca de produtos. Mas quando nós voltamos um ano depois ao mesmo sítio onde foi feita a estrada, ela não está lá. Então alguém tem de ser responsabilizado. Faltou dinheiro? Cimento? O que é que aconteceu? Porque o erário é público. A sociedade, até por um imperativo de instrução, porque um povo mais instruído tem mais acesso à informação, às vezes esquece-se que o Estado somos todos nós.O Estado não é aquela coisinha pequenina a que chamamos Governo, a que chamamos Presidente da República. O Estado é o Dani, a Alexandra e cada um de nós. E nós temos o dever moral de informar quem nos governa e temos o direito de ser informados relativamente a estas coisas. E quando o dinheiro é pouco, como nos dizem constantemente que é, não podemos perdoar prejuízos. Eu não posso fazer a mesma estrada 20 vezes. No dia em que um governador, director de uma empresa pública, o governador de uma província for exemplar e publicamente punido, provavelmente os outros acertam o passo. Agora há aqui indisciplina também. Por exemplo, não posso aceitar que uma estrada que me custou milhões de dólares ao fim de um ou dois anos não esteja lá.Não há magia e chuva cai em todo o mundo. Não posso lutar com um fenómeno natural, tenho é que garantir que a minha obra seja de qualidade. As estradas na Alemanha não desaparecem e lá há nove meses de inverno.
 
Acha que há no país um sentimento total de impunidade?
Há sim um sentimento total de impunidade. Já o disse noutro dia relativamente ao orgulho que sinto porque temos um país em África que se está a tornar um exemplo, que é Cabo Verde. Inclusivamente até agora uma senhora cabo-verdiana foi nomeada para o cargo de directora-adjunta da FAO. Mas uma das coisas que felicitei naquele povo é a humildade. Os nossos dirigentes têm que aprender a ser humildes. Não somos enciclopédicos, não sabemos tudo e, neste momento, temos em Angola uma sociedade civil credível, que todos os dias emite opiniões – vocês jornalistas, académicos, economistas, arquitectos, nas redes sociais, blogues. Não podemos ter a veleidade de construir um país apenas com o saber de um pequeno grupo. Temos que criar oportunidades para ouvir outras pessoas, porque há gente que pensa neste país. E há gente que tem qualidade e capacidade técnica para influenciar beneficamente. E temos exemplos vivos aqui.
 
Esteve no Governo de Unidade e Reconciliação Nacional durante 12 anos como vice-ministra da Educação. O que é que achou e quais foram as insuficiências que encontrou?
Em primeiro lugar foi uma experiência fantástica por variadíssimas razões e porque tive liberdade para trabalhar. A mim ninguém me incomodou e ninguém me disse que não podia trabalhar. A única insuficiência é que não havia dinheiro para o sector social da educação. Nesta contingência e porque lá está, mais uma vez o espírito de sobrevivência, uma vez que sempre fui educada que quando não se tem cão caçamos com o gato. Um dos problemas que vi quando cheguei à Educação é que a taxa de abandono escolar era elevadíssima. Nessa altura o Estado estava a perder milhões de dólares porque os alunos, sobretudo no ensino primário, ou ficavam 10 anos para fazer quatro ou faziam a primeira, segunda, terceira e quarta classe em seis. Entupiam o sistema, não permitiam que os outros entrassem. Isto por um lado. E, por outro lado, muitas das vezes a escola começava com 70 alunos, a meio do ano tinha lá 20 e, provavelmente, no final do ano tinha lá muito menos. Hoje é difícil inventar a roda, porque as rodas todas foram inventadas, e o que estamos a fazer actualmente, no funso, é um upgrade das rodas . Uma das coisas de que me orgulho de ter criado e é uma produção minha – e assumo – foi o programa de merenda escolar. Ainda estávamos em guerra, não se esqueça que o GURN começou em 1997 e a guerra em 2002, mas entre estes anos os investimentos eram muito poucos a nível social e os que havia era do ponto de vista da emergência. Na altura estava cá um representante do Programa Alimentar Mundial, Francesco Strippoli, que foi um encontro feliz porque ele também tinha sentido prático. Chegámos à conclusão que no campo de deslocados não havia diferença entre o desenvolvimento e emergência. Então, se estávamos a dar comida para o deslocado porque é que não dávamos também às crianças que estavam nas escolas? E os nossos primeiros programas começaram exactamente nas escolas que fizemos de raiz, no âmbito do Programa Comida pelo Trabalho, nos campos de deslocados no Bié, Huambo e Malanje. Depois teve muito tempo ligado a humanização do deslocado por um lado, porque as crianças não iam à escola. E depois extrapolou ainda com o Programa Alimentar Mundial até praticamente 2004-2005 para as escolas públicas. Foi quando depois o PAM foi pouco a pouco retirando os seus apoios à emergência angolana, porque já não havia mais guerra, estávamos em paz, e depois o Governo, a partir de 2008, começou a assumir o programa junto dos governos provinciais.
 
Acredita que a merenda escolar, nos moldes como é feita hoje, seja um santo remédio para o absentismo que ainda se regista em algumas instituições de ensino?
Não conheço o programa na generalidade, porque foi descentralizado. No tempo em que criei o programa nós dávamos comida, era uma alimentação feita. Inclusivamente, isto era muito interessante porque não só adquiríamos a produção nacional, uma vez que muitas coisas eram adquiridas aí a volta e indirectamente estávamos a incrementar os rendimentos das crianças. As mamãs das crianças eram as que cozinhavam e o PAM, no âmbito desta prestação de serviço, atribuía-lhes um cabaz alimentar. Portanto, isto era um círculo vicioso pela positiva que beneficiava alunos, professores, camponeses e a família. Hoje sei que há vários tipos de merenda, não sei porque foi descentralizado e a responsabilidade é dos governos das províncias, mas penso que cabe a eles, provavelmente, trabalhar com nutricionistas. Foi o que nós fizemos na altura e verificar porque todas as regiões não têm as mesmas necessidades. Há regiões onde as crianças estão mais anémicas, outras onde precisam mais de iodo, como naquelas onde as crianças não comem peixe fresco, isto tem consequências depois na idade adulta. E nós, nos nossos programas, tentamos aliar estas mais-valias à alimentação, com programas vitamínicos. Agora se for uma bolacha de água e sal com um copo de sumo é claro que não vai alimentar, provavelmente vai retirar a fome da criança num curto prazo. Obviamente também não deixa de ser eficaz porque o interesse da merenda escolar é duplo. É alimentar, mas, por outro lado, também manter a criança na escola. Se a criança se sentir confortável com este pequenino lanche eventualmente será sempre um benefício porque a escola neste momento no mundo não é atractiva, não interage. Talvez não estejamos a fazer isso, mas se calhar, daqui a uns anos, vamos ter de a revolucionar e esta ideia não é minha. Se calhar é um conjunto de ideias a analisar à volta do mundo e hoje há conceitos giríssimos relativamente a uma nova abordagem escolar. Hoje os miúdos, não se esqueçam, têm fontes de informação constante. Lembro-me de me zangar com o meu filho mais velho que pegou no computador e desmontou-o. E depois aparece-me aqui com um oito a informática. Eu disse: espera aí, como é que te perdes no computador e tens um oito”. A professora disse-me: calma aí, Alexandra. E ela diz este é um enter. Um miúdo de 14 anos, que nasceu dentro do computador, quer lá saber porque é um enter. Ele quer é que o estimulem. Eu acho que este estilo é importante que aconteça também.
 
Em termos gerais, como é que vê hoje o sector da Educação no país?
Não pode ir muito mais longe do que está hoje, porque infelizmente continuamos a ser o país africano com a menor orçamento para a Educação. Temos de compreender de uma vez por todas que o sector da Educação, as suas necessidades, não se esgota, na construção de escolas. Não me interessa nada ter uma excelente escola, é obvio que o equipamento é importantíssimo porque aprendemos melhor quanto mais confortáveis estivermos, mas se não tivermos um excelente professor é claro que não vamos muito longe. Portanto, há aqui uma série de reformas e coisas que já estão projectadas que provavelmente não se consegue fazer com a rapidez que seria desejada porque o orçamento não é suficiente. E não é mesmo.
 
Qual é a sua opinião em relação à Reforma Educativa em curso no país?Saí do Governo antes de ser implementada nas escolas. Mas é um programa que está de alguma forma com um carácter ainda experimental, que tem estado a ser ajustado de acordo com aquilo que são as suas mais-valias e suas insuficiências. Como todos os programas tenho opiniões positivas e negativas relativamente aos receptores. A leitura dos programas tem de ter um prazo, médio, longo, e acredito que o Ministério da Educação está atento a isso para fazer uma avaliação e verificar em que medida em relação ao projecto anterior veio a constituir-se uma mais-valia.Se fosse ministra da Educação…Mas não sou.Vamos supor, até porque já foi vice-ministra e esteve a um passo. Quais são os problemas que atacaria de imediato?A formação de quadros. Porque devemos investir tudo o que temos e o que não temos. Este é o futuro do sector, é o pilar. Se não tivermos um bom professor, não só do ponto de vista qualitativo, em termos da sua qualidade académica, prestação de serviço, mas também um professor que consiga ser veículo de boas práticas. Mesmo que seja competente temos que ter também um cidadão responsável. Não é de agora e se calhar está-se a perder um bocado, mas toda a vida professores e médicos foram consideradas profissões de referência, exactamente porque só iam para estas profissões pessoas que tinham vocação. No âmbito desta vocação é exigido a um ou outro que assumam a sua profissão com um sentido de cidadania exímio. Isto tem de ser aliada à competência técnica.A falta de verbas fez com que não implementasse alguns programas no Ministério da Educação?Claro que senti isso, mas também fui à procura. A área social naquele tempo era muito fácil de ser olhada sobretudo pela comunidade internacional. Porque havia muito dinheiro, organizações não-governamentais. Provavelmente até 2008, a maioria dos programas que foram feitos na área social da educação foi com recurso a doações, programas financiados internacionalmente, por agências das Nações Unidas ou associações individualmente consideradas. Naquela altura praticamente não havia cabimentação. Mas temos de entender uma coisa: isso não é uma crítica, mas sim uma constatação. Estávamos a sair de um 2002, toda a gente estava à espera que tudo acontecesse. Nesse momento todas as prioridades eram prioritárias, passando o pleonasmo. Do meu ponto vista o erro foi – ou continua a ser – existir um patamar de exigências no início onde fomos obrigados a olhar para todos os problemas que temos. Mas depois, a pouco e pouco, temos que olhar mais para aqueles que fazem e que são o motor de arranque que vai puxar os outros. Enquanto não tiver um povo instruído vou continuar a ter mortalidade, pobreza, a importar quadros até para acarretar cimento. A vida começa a ficar muito específica e quem de facto não entra para este caminho da instrução perde a capacidade de estar no circuito e pode tornar-se num ‘outsider’. E temos que olhar para o nosso país ainda com maior preocupação quando percebemos, de acordo com estatísticas que temos, que a maioria da população tem menos de 30 anos, compreendendo 64 ou 65 por cento da população. Temos que olhar para esta camada da população com imensa responsabilidade, é para ela que o Governo tem de trabalhar, os programas têm de ser desenvolvidos e pensar na sua sustentabilidade e no seu desenvolvimento. Ou não estaremos a fazer nada.
 
Está desencantada com a forma como está a ser dirigido o país?
Os nossos dirigentes têm que aprender a ser humildes. Não somos enciclopédicos, não sabemos tudo e, neste momento, temos em Angola uma sociedade civil credível, que todos os dias emite opiniões – vocês jornalistas, académicos, economistas, arquitectos, nas redes sociais, blogues. Não podemos ter a veleidade de construir um país apenas com o saber de um pequeno grupo
Não é uma questão de desencantamento. Mas é assim: o povo é soberano e escolheu um partido. Esse partido legitimamente está a governar e obviamente seria de muito gosto dizer que este partido está errado. Provavelmente posso não concordar com a sua estratégia, que é a estratégia que aquele partido seleccionou como sendo a mais importante dentro do seu programa eleitoral e para levar o país a bom porto. Do meu ponto de vista, e penso que não sou a primeira a pensar assim, quanto mais que não seja pelas opiniões que tenho ouvido, há de facto uma série de constrangimentos que não estão a ser colmatados e que são estruturantes. Enquanto não forem resolvidos, por mais petróleo que houver, eu nunca vou conseguir eficácia, sobretudo na questão da pobrezan porque não tenho recipiente. Eu não posso atacar a pobreza dando dinheiro às pessoas. Para atacá-la, ter de eliminá-la de vez e para fazer com que as futuras gerações sejam insusceptíveis de viver como estamos hoje, eu tenho que educar. E isto é um projecto muito sério em qualquer parte do mundo, mas aqui não está a ser tratado com seriedade. Temos que ser francos.
 
Porquê?
Não está, meu caro amigo. Porque  é que um aluno chega à 12ª classe e não sabe escrever o seu próprio nome? É só ver a quantidade de gente que desiste da escola porque tem de comer. E entre a escola e a comida, ele tem de procurar algum trabalho, nem que seja vender na rua.
 
Mas há uma Comissão Nacional de Luta contra a Pobreza. Não tem visto o trabalho que tem sido feito?
E faz o quê essa comissão? Está a fazer asfalto? Betão? Do meu ponto de vista, se calhar, há uma parte deste asfalto, betão, que é importante, mas não estamos a afectar as pessoas. É muito bonito a estrada vir até à minha casa, mas é mais importante ver se o emprego, comida e o desenvolvimento da minha lavra também vão. Isto não está a ver. Provavelmente é a segunda parte do programa, mas também está a demorar a chegar. E nós não podemos continuar a olhar para o país sempre numa visão dupla, que normalmente do meu ponto de vista é um paradoxo. Quando as coisas estão mal dizemos que depois temos que ver porque tivemos 30 e não sei quantos anos de guerra e mais 500 de colonialismo. Quando estão bem apontamos sempre o futuro. Nós vamos fazer, vai acontecer, temos em vista que, estamos a trabalhar neste sentido. As pessoas querem coisas hoje, quero saber o que amanhã o Governo que saiu das eleições vai fazer para o cidadão que não tem emprego, escolaridade, que provavelmente só tem uma família monoparental.
 
Não faz sentido evocar a guerra para se justificar alguns males que ainda assolam a nossa sociedade?
A questão não é evocar a guerra. A guerra aconteceu e é um factor histórico, não posso apagar isso com borracha. Bem que gostaria de apagar. A questão é que a guerra não deve servir de desculpa. Ok, tivemos guerra, o que é que vamos fazer daqui para frente? Berlim ficou 50 vezes mais destruída do que nós. O tsunami aconteceu no Japão, mas 10 dias depois estava arrumado. Está a ver a mentalidade, precisamos de uma acção consequente. E o que estamos a ver aqui são diversas acções inconsequentes. Você está por exemplo a abrir o jornal e dizer que o Hospital do Uíge ou de Malange não tem água. Não posso. Se um cidadão consegue construir um tanque de água e põe lá uma cisterna, o que está a fazer o senhor governador?
 
Acha que se deve demitir?
Deixo isso ao seu critério. Eu provavelmente demitir-me-ia. Eu se gerisse uma província em que não conseguisse pôr água no hospital não estaria a fazer nada. Porque quem perde a guerra não é o soldado, é o general meu caro amigo. O seu filho só é mal-educado se você como pai não lhe der educação. A culpa é do pai.
 
Defende sempre a eleição dos governadores. Acredita que seria a solução para a resolução de alguns problemas que as províncias vivem?
Acho por várias razões. Talvez na primeira fase eventualmente não fizesse diferença até que o povo se habituasse a exigir. Mas temos que entender que estamos a atravessar uma fase em que nós estamos a passar de uma geração de alguma forma um bocado amorfa, parada, que foi aquela que infelizmente sofreu a guerra, que esteve na guerra e que perdeu a sua vida, perna, objectivos e futuro. E muitas vezes hoje está abandonada. Mas, muitas vezes, esta geração do século XXI é muito exigente, está informada, mesmo que não tenha tido a tal formação formal. Porque hoje o acesso à informação está à distância de um dedo, então quando olho para isso não posso esperar continuar ter as mesmas regras de gestão e governação caduca perante esta geração. Hoje ainda funciona. Provavelmente daqui a 10 anos não vai voltar a funcionar de certeza absoluta. Porque em termos comparativos eles são a maioria da população. Esta maioria é que vota, é que elege. Portanto, eu tenho que ter uma solução para esta gente, está à espera de alguma coisa. O meu filho com 9 anos, quando ele for votar, ele sabe lá quem foi o Savimbi, onde está a guerra ou o colono? Não sabe. Portanto, ele vai querer saber o momento e o presente dele. Não vai olhar para o passado, como o seu filho também não vai. Neste presente eles vão olhar para o presente e neste presente vão olhar para o mundo.
 
Como é que vê Luanda hoje?
Mal, muito mal. Luanda parece-se com aquelas cidades em que se eu aterrasse pela primeira vez ia pensar que é auto-gerida. Ninguém geria, estava-se a gerir sozinha. Hoje ia quase partindo uma perna. Ando todos os dias aqui na Maianga com o meu cão. Nem o bairro do Alvalade, que é o bairro dos ricos sobrevive, onde mora a nomenclatura. Não tem um bocadinho de passeio, tem lixo, o Alvalade não tem contentor de lixo, a Maianga não tem contentor de lixo e estamos a falar do centro da cidade. Não vou mais falar do Cazenga e do Sambizanga, porque isso já foi tão falado. As pessoas mesmo aí no São Paulo devem estar a acender velas todos os dias e rezar para não morrerem. Isso não é ser sarcástica, estou a falar com a maior responsabilidade. O que se está a fazer a nossa população é criminoso. As nossas crianças estão a brincar em cima do lixo, nós estamos a viver em cima do lixo, porque as coisas não têm estruturas de base. Não posso aceitar que Luanda gaste milhões de dólares todos os meses a operadoras para tirar o lixo. Então nos outros países o lixo sai todos os dias da porta. Há algum milagre? Aqui não sai? Então deve haver algum milagre, vamos lá aprender. Eu não sei se isto tem a ver com os governadores, já passaram aqui tantos. Isso não mudou nada. Agora fizeram a nova divisão administrativa, mudou o quê? Foi só colocar dois galos na mesma capoeira a chocarem um com o outro. O que nos disseram é que deviam aproximar a administração dos cidadãos. Vocês viram a administração mais próxima dos cidadãos? Eu não vi. O Cazenga por exemplo é um país, tem mais população que a província do Bié. Isto é grave. Há países na Europa que têm menos população que o  Cazenga. Não podemos estar a olhar para isso e vir com esta história que a mim irrita-me de que agora vamos fazer um projecto social de casas evolutivas. Casa evolutiva é o quê? Dão-me duas chapas e eu rezo posteriormente que alguém me dê o resto.
 
É contra estes projectos?
Claro que sou. O governo que tem de fazer por mim é dizer que vou chegar aí e dizer que vou infra-estruturar o seu lote. A população até está a construir, mas estão a fazê-lo em cima de nada. Então vamos urbanizar. Em vez de fazermos aquela fossa que parece uma arca térmica nas casas do Zango, que não dá para uma família de um pessoa, poderíamos fazer um cano, esgoto a sério que vai para um Etar. Pôr água, luz, construir uma cidade tem regras. É só olhar para os outros países, não estamos a copiar.
 
Esse gosto pela política nasceu aqui em Angola ou já o trouxe de Portugal?
Eu era mais uma miúda em Portugal, lá era apenas atrevida, como hoje ainda sou se me posso considerar. Uma atrevida com preocupação, com sentido patriótico genuíno. Há coisas que digo que podem parecer mais ríspidas, um sarcasmo, mas são com dor. Tenho a responsabilidade moral de todos os dias mostrar aos meus filhos que eles têm que amar este país. Mas para eu conseguir fazer isso tenho que lhes mostrar que temos um país. E um país não é só uma constituição, uma bandeira e um poder político. A minha pena de facto é verificar que não estamos todos imbuídos do mesmo espírito. Provavelmente, com muitos menos recursos, outros países estão a ir muito mais longe. Se facturamos 70 ou 80 biliões de dólares em petróleo, como diria o tio Hermínio “não vendemos óleo de palma“. Temos de ir mais longe. Não é longe ir com Baía e ir mais longe no cerne da questão, que é a qualidade de vida da população angolana. Educação, saúde e infra-estrutura. Se conseguirmos ultrapassar estes três factores de constrangimentos, provavelmente vamos dar um passo qualitativo. Mas isso tem que ser feito com eficácia e ter a capacidade e a honestidade de a montante e a jusante, que é uma coisa que falta neste país, de monitorar os programas. Verificar quando eles não estão correctos. Lembro-me de ter ouvido o Ministério da Administração e Território dizer que vai exportar esta nova divisão administrativa que fez em Luanda para outras províncias, mas eu estou a rezar para que não exporte. Exportar mais para que se aqui não funciona. Arranjem um novo modelo.
 
Iremos a breve trecho ter uma nova “Mamã Coragem”?Não, “Mamã Coragem” foi só uma. Eu nem filha coragem sou. Essa é a mesma coisa que amanhã as pessoas nos virem dizer que este é o novo Mandela ou novo Picasso. Há pessoas que nascem nesta vida e são únicas. Sou muito diferente da “Mamã Coragem”, por exemplo ela não era uma pessoa agressiva, irónica. Era bem mais elegante do que eu.O que acha que herdou dela?O humanismo. Sou uma pessoa que não a dificuldade, com alguém que esteja ao meu lado e que tenha algum problema. Estou sempre a tentar ajudar. A vida para mim só faz sentido se for na partilha, porque eu ser rica e o resto do mundo todo for pobre seria profundamente infeliz. Não conseguiria ter muita riqueza e viver sozinha no palácio. Tinha que me definir. Isso foi por educação porque sou filha única. Este é o grande sentido de humanismo que herdei da minha mãe. Do meu pai herdei, de facto, esta capacidade analítica. Ele não era muito jogador de xadrez
 
.Já lá vão 19 anos desde a sua morte. Hoje tem alguma informação sobre o que terá acontecido ao seu pai, Manuel de Victória Pereira “Manolo”?
Não sei nem nunca vou saber. Também não vou procurar mais porque acho que é demasiado doloroso. Ficou naqueles casos de tantos outros aqui que morreram e que ninguém soube. Talvez um dia isso acabe no nosso país, mas ainda não acabou infelizmente. As coisas não acontecem por acaso, as pessoas não aparecem mortas por acaso. Não desaparecem. Mas do que perder um pai foi sobretudo perder uma asa. Quando se é filho único ficamos com a sensação que o dia em que perdermos o pai e mãe ficamos sem família. Felizmente todas as pessoas que me rodeiam acabam por ser a minha família. E o suporte daquilo que sou hoje. 
 
DANI COSTA (opais.net)